Aulas de Canto Sao Paulo –  Estudio Vocal Raphael Begosso

017 – Como fazer segunda voz?

Você não consegue fazer uma segunda voz? Gostaria de saber o que é “terçar” (como se diz em alguns meios)? Acha que cantores (sertanejos por exemplo) já nascem com esse dom?

Bom, a má notícia para os pessimistas de plantão é: se você estudar, você conseguirá sim fazer uma segunda voz. Não existe isso de “nascer” sabendo fazer a segunda voz.

O que seria cantar uma segunda voz?

Em inglês, geralmente dizemos “sing harmonies” e esse termo nos parece muito mais descritivo do que a contraparte em português. Isso porque uma segunda voz apenas funcionará bem se ela estiver seguindo a harmonia (os acordes) daquela música especificamente.

Na verdade, ela funciona quase como um contraponto harmônico com a voz principal. Em cenários mais simples, uma segunda voz caminha mais ou menos no mesmo desenho da voz principal, mas respeitando – e fazendo adaptações necessárias – o/ao acompanhamento harmônico da música.

Vamos considerar aqui então o cenário mais simples possível para uma segunda voz: uma voz principal canta uma melodia simples acompanhada por acordes simples; e nós pretendemos fazer apenas uma segunda voz acima ou abaixo dessa voz principal.

Imagine a melodia de “Brilha, Brilha Estrelinha” (Twinkle, Twinkle Little Star) em Dó Maior.

A primeira frase dessa música tem essa sequência de notas:

Dó – Dó – Sol – Sol – Lá – Lá – Sol – Fá – Fá – Mi – Mi – Ré – Ré – Dó

E uma das harmonizações possíveis seria:

C             G            F      C

Twinkle, twinkle little star,

F         C             G              C

How I wonder what you are

Há uma escolha que você deve fazer quando tiver que preparar uma segunda voz: se ela será acima ou abaixo da voz principal. A escolha depende de alguns fatores:

1) Da extensão vocal da melodia principal;

2) Da sua extensão vocal como cantor da segunda voz;

3) Da harmonia da música;

4) Do arranjo que se pensa para aquela música.

Sobre as extensões vocais

Os dois primeiros pontos são bem diretos. Analise as extensões e veja qual opção não fica nem muito grave nem muito aguda para você.

Sobre aspectos harmônicos e de arranjo

Com relação ao terceiro ponto, e como dito anteriormente, a segunda voz tem que fazer sentido com os acordes da música. Ou seja, não é muito comum termos notas que não pertencem aos acordes acontecendo na segunda voz enquanto aquele acorde específico é tocado.

Isso se aplica principalmente às primeiras e últimas notas das melodias referentes a cada acorde. Muitas vezes temos notas de passagem (às vezes até mesmo na voz principal) que fogem do acorde sobre o qual elas estão sendo cantadas. A função dessas notas de passagem é exatamente fazer a ponte entre duas notas pertencentes ao acorde e tornar, assim, a melodia mais fluida.

Por exemplo: as duas primeiras notas do nosso exemplo (onde se canta Twinkle, twinkle) são Dó e Dó e o acorde tocado no momento em que se canta essas duas notas é um Dó Maior. Então a segunda voz seria restrita às outras notas que compõe esse acorde (Mi ou Sol).

Há também um outro ponto importante: em casos de apenas 2 vozes (e novamente em cenários simples), a segunda voz deve privilegiar intervalos harmônicos de terças ou sextas. Quando não for possível usar uma terça substitui-se por uma quarta e quando não for possível usar uma sexta substitui-se por uma quinta.

Ou seja, privilegia-se intervalos classificados como consonâncias imperfeitas. Evite intervalos como segundas ou sétimas. Oitavas e uníssonos geralmente não são nem consideradas segunda voz (por serem a mesma nota), são consideradas dobras ou reforços. Quartas paralelas acima ou quintas paralelas abaixo ou acima também não são desejadas porque apesar de terem um pouco mais de informação harmônica, ainda atuam mais como reforço (como curiosidade, canto gregoriano em geral desenvolve-se com intervalos de quintas paralelas) do que como uma voz independente.

E qual o problema dos reforços?

Bom, já passamos da fase de falar em certo e errado em termos de escolhas musicais, não é mesmo? Mas, de fato, eles acabam empobrecendo o arranjo porque “perde-se” uma voz. É quase como se não tivéssemos uma primeira e uma segunda voz. No caso de reforços, temos uma primeira voz com um “detalhezinho” a mais.

Na prática

Vamos considerar um homem cantando a melodia de “Brilha, brilha estrelinha” começando num Dó2 (uma oitava abaixo do Dó central) e também que um outro homem pretende fazer a segunda voz.

Com relação à extensão vocal, descartaríamos opção de segunda voz abaixo porque ficaria muito grave.

Se essa segunda voz começasse em uma terça acima da primeira nota e seguisse em terças paralelas até o fim da frase, teríamos:

Mi – Mi – Si – Si – Dó – Dó – Si – Lá – Lá – Sol – Sol – Fá – Fá – Mi

Com relação à harmonia e ao arranjo quase tudo fica dentro também. Os dois únicos desvios que teríamos seriam na sétima nota (Si) na antepenúltima e na penúltimas notas (os dois Fás). Se fizermos assim, estaríamos adicionando uma sétima maior do acorde de Dó (onde se canta “star”) e uma sétima menor no acorde de Sol Maior (onde se canta “what you”).

No caso do Si, seria melhor substituirmos pela manutenção da nota dó que vinha sendo cantada antes, ficaria assim:

Mi – Mi – Si – Si – Dó – Dó – Dó – Lá – Lá – Sol – Sol – Fá – Fá – Mi

No caso dos dois fás, é aceitável porque é um acorde de dominante que segue para a tônica e esse Fá acaba resolvendo no Mi (esses conceitos aprendemos quando estudamos harmonia – se quiserem deixem suas dúvidas nos comentários que escrevemos outros posts) e também porque é uma música bem simples, com cara de música tradicional; então uma dominante com sétima pode fazer parte desse universo.

Ao mesmo tempo, caso quiséssemos evitar essa sensação de dominante com sétima, que dá uma cara meio antiga e “clássica” para a música, poderíamos manter a nota sol que a segunda voz vinha cantando. Nesse caso, ficaria assim:

Mi – Mi – Si – Si – Dó – Dó – Dó – Lá – Lá – Sol – Sol – Sol – Sol – Mi

Assim, sacrificaríamos um pouquinho o desenho da segunda voz e introduziríamos um intervalo de quarta na antepenúltima e na penúltima notas, mas teríamos uma cara mais moderna em nosso arranjo.

E se fossem duas mulheres cantando?

Nesse caso a voz principal começaria a cantar um Dó3 (central) e a segunda voz, se fosse acima, num Mi3, mas poderíamos seguir exatamente o que falamos nos parágrafos anteriores.

Por questões de extensão vocal aqui poderíamos pensar numa segunda voz abaixo da principal também. Nesse caso ficaria assim:

Sol – Sol – Ré – Ré – Fá – Fá – Mi – Dó – Dó – Dó – Dó – Si – Si – Sol

Nesse exemplo, optamos por uma segunda voz bem simplificada (que seguisse ao máximo a voz principal) fazendo apenas algumas adaptações. Note que optamos por quartas em boa parte da linha da segunda voz porque terças inferiores adicionariam muitas notas estranhas aos acordes, mas houve um momento que voltamos para as terças.

De certa forma, o arranjo com a segunda voz inferior ficou um pouco mais pobre do que com a segunda voz superior porque houve poucos momentos de consonâncias imperfeitas. Se fôssemos um pouco mais criativos, teríamos que abrir mão do desenho original da primeira voz para criar mais momentos de terças e sextas. Um exemplo:

Dó – Dó – Si – Si – Dó – Dó – Mi – Dó – Dó – Dó – Dó – Si – Si – Dó

Esse exemplo ficaria com um arranjo mais interessante, mas talvez um pouco mais difícil de cantar e memorizar.

Primeira voz feminina e segunda voz masculina

Nesse caso, talvez a melhor opção seria que a voz feminina começasse no Dó3 (central) e a segunda voz masculina fosse abaixo da voz principal (começando ou no Mi2 ou no Dó3). Nesse caso podemos seguir o mesmo que explicamos para a segunda voz feminina abaixo.

Primeira voz masculina e segunda voz feminina

Aqui, um homem agudo poderia cantar começando num Dó3 (central) e a segunda voz feminina ser acima, seguindo o que dissemos sobre as duas vozes femininas.

Caso o homem fosse grave, a segunda voz feminina ainda seria acima (começando num Mi3), mas elas estariam separadas por um intervalo que chamamos de décima (uma terça oitava acima). Não é tão comum, mas funciona bem.

Como estudar esses exemplos todos?

Como você já deve ter notado, é interessante ter um pouco de conhecimento de teoria, um pouco de harmonia e poder tocar melodias e acordes em algum instrumento (os melhores são piano e violão).

Então bole a sua segunda voz (pode usar os nossos exemplos como partida e, como exercício, ir até o fim da música) e cante muitas (mas muitas mesmo) vezes com o acompanhamento dos acordes (ou playback) SEM a primeira voz. Você tem que afinar muito bem no acompanhamento a sua segunda voz e memoriza-la; como se essa voz fosse a voz mais importante da música. Só depois volte a cantar ouvindo a primeira voz.

Caso não faça isso, pode acontecer o que é muito comum com iniciantes em segunda voz que é acabar caindo na primeira novamente. Ou então não conseguir afinar muito bem a segunda voz.

Nesse sentido equipamentos de gravação podem ajudar muito você a estudar, veja nosso outro post: http://www.raphaelbegosso.com/016-equipamentos-para-aulas-de-canto/

Com os equipamentos você pode gravar a primeira voz e cantar e segunda, pode se ouvir cantando a segunda voz e caso você ainda se atrapalhe tocando e cantando, pode gravar o piano ou o violão e estudar apenas o canto. Inclusive até você ficar bem seguro você pode ir colocando o volume da primeira bem baixo, apenas de fundo enquanto canta a segunda voz.

 

Conclusão

Há pessoas que têm facilidade e fazem bem a segunda voz sem seguir esses passos? Sim, mas elas são exceções. E não podemos nunca nos pautar por exceções quando começamos a estudar algum assunto, temos que ir no que já foi testado e comprovado muitas vezes.

0 Comments

Your email address will not be published. Required fields are marked *