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013 – Registros Vocais

Quem começa a estudar canto logo se depara com os termos voz de cabeça, voz de peito, voz mista, falsete, whistle voice etc. Muitos vocal coaches tentam definir perfeitamente esses termos (inclusive com definições fisiológicas, referentes a musculaturas) e passam isso até mesmo para os alunos que querem cantar por hobby.

Todos os termos listados acima tem a ver com registros vocais. Qual a importância deles no canto? E todos que querem aprender a cantar bem precisam saber de tudo o que ocorre fisiologicamente mesmo? Será que cantar no falsete é errado? Quem tem um agudo legal e potente está cantando na voz de peito?

Em primeiro lugar, o que você vai ler na sequência é UMA das visões. Não há consenso completo sobre o tema e até hoje vários preparadores vocais, fonoaudiólogos e otorrinos pelo mundo todo estudam de forma muito séria e profunda o tema. 

Bom, mas e os registros?

Uma definição muito simplista é que registro é “uma série consecutiva de tons com propriedades similares”.

De um ponto de vista científico ou laríngeo, registro é uma série consecutiva de tons produzida com o mesmo mecanismo.

De um ponto de vista do canto ou acústico/perceptual, registro é uma série consecutiva de tons produzida com uma qualidade vocal similar.

Ponto de vista científico

Vamos adotar o conceito de Minoru Hirano (1974) que introduziu o conceito de Body-cover (corpo-cobertura) na anatomia das pregas vocais onde Cover consiste nas duas camadas superiores de tecido e Body consiste nas três camadas inferiores de tecido – totalizando cinco camadas.

Podemos definir registros de acordo com quais partes da prega estão vibrando:

  • M0: onde Body e Cover estão frouxos;
  • M1: onde Body e Cover vibram;
  • M2: onde Body não vibra mais;
  • M3: onde as pregas vocais estão bem finas e firmemente esticadas, somente Cover vibra e frequentemente há um fechamento de prega incompleto.

Em termos mais familiares:

  • M0: vocal fry ou registro pulsátil;
  • M1: registro modal ou registro normal ou voz de peito / mix voice (voz mista ou média)** /voz de cabeça*;
  • M2: voz de cabeça* (falsete – veja abaixo) / mix voice (voz mista ou média)**;
  • M3: whistle voice ou registro de apito.
  • Dependendo da terminologia adotada, voz de cabeça se encaixa no M1 ou no M2 (mais detalhes abaixo);

** A mix voice (voz mista ou média) aparece tanto em M1 quanto em M2 por motivos diferentes daqueles da voz de cabeça. Nesse caso os cantores realmente podem acessar de diferentes maneiras essa coordenação.

Ponto de vista do canto

Aqui as coisas podem variar bastante porque os sons de cada indivíduo dependem muito do formato de seu trato vocal. Timbre e intensidade muitas vezes confundem um pouco nossa percepção também.

Muitos termos ficam subjetivos do ponto de vista do canto, apesar disso, achamos importante discutir os termos peito, cabeça, mix, falsete etc com vocês porque muitos aprendem sobretudo por retorno acústico, perceptual e sensorial. Mas certifique-se que você saiba exatamente quais são esses sons resultantes na sua própria voz.

Lembrando apenas que toda a voz é produzida nas pregas vocais. As sensações vibratórias (e nomenclaturas decorrentes) podem ser sentidas na cabeça, no peito etc por fenômenos de ressonância.

Como guias gerais, poderíamos usar:

  1. Fry: é o registro mais grave. O nome em inglês tem a ver com algo fritando (borbulhando) na frigideira. Usado por exemplo por monges tibetanos para cantar graves abaixo de sua extensão de voz “normal”. Alguns cantores, principalmente no country usam como forma de iniciar uma nota grave. Um uso muito legal pra ele é quando a pessoa tem uma região grave não fortalecida em sua voz;
  1. Modal: também chamado de normal exatamente porque é aqui que se concentra a maior parte da voz falada e cantada das pessoas. Nós aqui no estúdio gostamos de subdividir esse registro em: voz de peito, mix voice (voz mista ou média) e voz de cabeça. A idéia é que notas graves fiquem concentradas na ressoância de peito, notas médias e médio-agudas (quando queremos potência e um maior engajamento emocional) fiquem na mix voice – mistura de um pouco de peito, um pouco de cabeça, um pouco de ressonância faríngea e talvez um pouco de compressão – e, por fim, as notas mais agudas concentrem-se na ressonância de cabeça;
  1. Falsete: produção em que a voz tem um som parecido com o som de uma flauta. O termo falsetto vem do italiano como diminutivo da palavra falso. Daí talvez venha grande parte do preconceito com relação a esse termo como se ele não pertencesse a voz de uma pessoa ou que mesmo que seria errado usar essa produção vocal. A música pop está recheada de exemplos de falsete;
  1. Whistle Voice: é o registro mais agudo. O termo vem do inglês porque nessa produção há a idéia que a voz seja bem aguda e estridente assemelhando-se a um apito. Muito pouco usado na música, mas há exemplos dessa produção em algumas canções de Mariah Carey.

O registro modal e a mix voice merecem um post a parte. Essa foi só uma pincelada geral.

Falsete ou voz de cabeça?

Na discussão anterior, voz de cabeça pode aparecer tanto ao M1 quanto ao M2.

Essa é praticamente uma batalha eterna, talvez até nós faremos um outro post (quantos posts extras, não?) exclusivamente sobre isso para não sobrecarregar esse, mas de um forma bem simples: há uma corrente que defende que a voz de cabeça é mais plena e que o falsete se caracteriza por um excesso de soprosidade. Sendo assim, você teria muito mais controle dinâmico (de intensidade – forte e fraco) quando na voz de cabeça. Fica mais difícil controlar a afinação no falsete também exatamente pelo excesso de soprosidade.

Nos aqui do estúdio tendemos a concordar com essa corrente por fins práticos. Nesse caso, voz de cabeça ficaria no M1 e falsete no M2.

Mais uma coisa essencial que defendemos aqui no estúdio é que há um único erro na hora de cantar: se machucar (no curto e no longo prazo). Fora isso, o resto são escolhas. Podem ser boas ou más escolhas e a medida que você amadureça musicalmente e avance nos estudos de técnica vocal, pode chegar até mesmo a mudar suas escolhas atuais. Importante também é avaliar através de retorno as posturas que você está adotando.

Num objetivo técnico e simples, devemos, no estudo e num primeiro momento, buscar equilíbrio na voz. Imagine um degradê de cores onde uma cor vá transitando para a outra da forma mais suave possível – deveríamos ter isso em relação aos registros vocais também conforme vamos do grave para o agudo e de volta do agudo para o grave. 

Mas é claro que isso tem muito a ver com o estilo musical que você está cantando também. Então pode ser que você não esteja se machucando agora ou que não se machucará no futuro, mas em alguns casos você pode não estar correspondendo às características mais comuns daquele estilo. Poderíamos até classificar isso como um erro estilístico.

Por último, pode ser que não seja necessário você saber todas as nomenclaturas e musculaturas envolvidas. Depende dos seus objetivos, depende da forma com que você aprende as coisas, depende se você é uma pessoa mais intuitiva ou se está conseguindo evoluir através da monitoração da sua voz (em gravações ou com microfone diretamente ligado enquanto você canta).

O que temos notado que mais funciona é quando os alunos entendem os objetivos dos exercícios vocais (e atividades no repertório) e praticam esses exercícios e atividades com regularidade e prestando atenção na postura encontrada em aula. As informações contidas nesse post e aquelas que forem mais teóricas passadas em aula deveriam servir como guias e complementos apenas. Uma fono ou um otorrino podem saber exatamente (melhor que professores de canto) o que acontece no corpo humano quando cantamos, mas, até mesmo se eles querem aprender a cantar bem, devem praticar como todas as outras pessoas.

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About the Author:

Raphael Begosso - Vocal Coach, Compositor e Produtor. Formado em Música com habilitação em Composição e Regência pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Raphael estuda canto há 12 anos e trabalha como professor desde 2002. Estudou também piano, guitarra, violão erudito e canto coral na Escola de Música do Estado de São Paulo (antiga ULM). Já trabalhou como cantor, maestro, diretor musical de grupos vocais/corais, arranjador e compositor. Atual aluno da Berklee College of Music na área de canto. Depois de passar por uma série de professores do Brasil e internacionais, hoje estuda e se especializa com o professor americano Brett Manning no método Singing Success – de eficiência comprovada e usado por vários cantores famosos e ganhadores de prêmios Grammy, MCA Awards e Dove como Hayley Williams (Paramore), Taylor Swift, Keith Urban, Mark Kibble e Claude Mcknight (Take 6), Michael Barnes, Luke Bryan entre outros. Trabalhou como cantor, arranjador e produtor do grupo vocal CantaMais.
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